UM ANO DE PALADARES



Ainda mal comecei a sentir o gosto, a aperceber-me do amargo-doce, do acre-acidulado, do salgado-azedo. No final é tudo mel, tudo o que se souber fazer com este creme untuoso que se cola nos dedos, na ponta da lingua, que escorre dos olhos e vem do peito, cá de dentro da boca ávida do coração. Continuo faminta. Sempre.

LADY GRENADINE





Quando ficou só vestiu-se de branco à maneira do luto oriental. Esqueceu as cores do mundo e fechou o coração. Colheu a última romã da época e ficou à espera da estação que lhe trouxesse novos frutos. Mas como o gosto da vida lhe escapara com a partida, a árvore definhou e não voltou a florir.


Fez-se lenda. Dizem que a sua última vontade foi sentir na boca um bago da grenadina apanhada. Fechou os olhos feliz com um sorriso por ver a romazeira que a esperava do outro lado. Acompanhada.

FRUTOS




Há outros frutos que deveríam ser proibidos para além da maçã oferecida.


Há um, grande e carnudo, alimento de poetas e de amantes que tanto enche como envenena e dilacera.


Chama-se o fruto da saudade. Inesquecível o seu
SABOR

A QUE SABE O VERBO



Encharcou-os de prendas várias, observou-os, forneceu o material e quis saber do que eram capazes e depois de ver que se alimentavam, seleccionavam apreciando e rejeitando, entregou-lhes o maior sabor de todos.


Porém, o mais dificil de digerir.


Atribuiu-lhes a voz e pediu palavras bonitas. E o paladar destas era tão raro que a partir daí passaram a usá-las com parcimónia no receio de lhes vulgarizar o gosto.



LIP GLOSS

Gosto de te dar trabalho, ver-te contrariado na ponta da lingua quando chegas à minha boca e saboreias alquimias de framboesas e mirtilos, é tudo parte de um plano para te fazer salivar e demorar a descoberta do que se esconde no paladar que apuro quando o teu hálito aquece o meu desejo.

O GOSTO PELA PALAVRA

Purpurinas. No fundo tingía as palavras de hálitos que encomendara, do seu achava-o ensonso, carenciado de uma maquilhagem que o colorisse de adjectivos saborosos e apelativos ao discurso, beliscava interrogações para logo matar a fome nas reticências.


Certo dia provou ameixas. Das verdes. E súbito a baba lhe inundou a boca. Como as palavras de uso alheio. Depois adoçaram-lhe a lingua com ameixas sangrentas, profundas, licorosas e desde então pouco mais abriu os lábios no medo de perder tal paladar.

ARCO-ÍRIS


Provo todas as cores.
Quero saber a que sabe o mundo

UMA VEZ SÓ CHEGA

Estranho terreno este em que se atiçam vontades e desejos e se vomitam palavras e enfados, iguarías estragadas comidas no exagero da hipérbole retorcida da mentira.
Estranho terreno este cheio de memória, de filamentos nervosos que se escaldam e arrepiam e consolam males do coração e se empapam à primeira do gosto provado como o pecado original.