Conversar. Saborear-te os gestos falados em doses de pequena folia quando nas tardes imaginadas de um Outono que nos há-de chegar, contamos de coisas já idas e recordamos paladares comuns e bons de afectos que outros nos trazem, que outros nos dão as mãos sem o toque dos dedos. Nós tão perto, os lábios tão próximo. Porque o gosto de um é o gosto universal das memórias das corridas de braços abertos pelas encostas ou o rebolar louco das dunas ou ainda o tino perdido do baloiço. Nós tão perto neste calor de Agosto onde as folhas que principiam a amarelecer para aquecer palavras na próxima estação, conversamos, sonhamos, recordamos, velhos novos sabores.
CARÊNCIA
Vicios. A dependência de olhos semi-cerrados enquanto o coração desacelera na pulsação do reconhecimento do que lhe é familiar, doce, precisado, um achar que não tendo agora que voltou não mais da liberdade dirá palavra.
Há mais na ponta da língua do que o sentido saboreia. Também o verbo, venenoso.
ACORDAR
Quero tudo, tenho fome e sede e olhos e boca de falar e contar sorrisos, quero pão de todos os gostos que possa dizer regresso, abraços e casa e sentir a voz na lingua a vibrar canções antigas como alimento que sacia das saudades que partem como os que se foram. Mas sempre me deram o miolo na macieza do seu bem-querer.
UM ANO DE PALADARES

Ainda mal comecei a sentir o gosto, a aperceber-me do amargo-doce, do acre-acidulado, do salgado-azedo. No final é tudo mel, tudo o que se souber fazer com este creme untuoso que se cola nos dedos, na ponta da lingua, que escorre dos olhos e vem do peito, cá de dentro da boca ávida do coração. Continuo faminta. Sempre.
LADY GRENADINE

Quando ficou só vestiu-se de branco à maneira do luto oriental. Esqueceu as cores do mundo e fechou o coração. Colheu a última romã da época e ficou à espera da estação que lhe trouxesse novos frutos. Mas como o gosto da vida lhe escapara com a partida, a árvore definhou e não voltou a florir.
Fez-se lenda. Dizem que a sua última vontade foi sentir na boca um bago da grenadina apanhada. Fechou os olhos feliz com um sorriso por ver a romazeira que a esperava do outro lado. Acompanhada.
FRUTOS
A QUE SABE O VERBO

Encharcou-os de prendas várias, observou-os, forneceu o material e quis saber do que eram capazes e depois de ver que se alimentavam, seleccionavam apreciando e rejeitando, entregou-lhes o maior sabor de todos.
Porém, o mais dificil de digerir.
Atribuiu-lhes a voz e pediu palavras bonitas. E o paladar destas era tão raro que a partir daí passaram a usá-las com parcimónia no receio de lhes vulgarizar o gosto.
O GOSTO PELA PALAVRA
Purpurinas. No fundo tingía as palavras de hálitos que encomendara, do seu achava-o ensonso, carenciado de uma maquilhagem que o colorisse de adjectivos saborosos e apelativos ao discurso, beliscava interrogações para logo matar a fome nas reticências. Certo dia provou ameixas. Das verdes. E súbito a baba lhe inundou a boca. Como as palavras de uso alheio. Depois adoçaram-lhe a lingua com ameixas sangrentas, profundas, licorosas e desde então pouco mais abriu os lábios no medo de perder tal paladar.
UMA VEZ SÓ CHEGA
Estranho terreno este em que se atiçam vontades e desejos e se vomitam palavras e enfados, iguarías estragadas comidas no exagero da hipérbole retorcida da mentira.Estranho terreno este cheio de memória, de filamentos nervosos que se escaldam e arrepiam e consolam males do coração e se empapam à primeira do gosto provado como o pecado original.
RAINHA ROMÃ

Em Dezembro o pai trazía-lhe romãs para a mesa do Natal, para enfeitar o engelhado das nozes e a solidez das pinhas.
Eram de casca muito esticada, um pouco áspera, ora douradas ora avermelhadas e sempre com uma pequena e perfeita coroa no topo, bicuda e altiva que parecía dizer Cheguei, Estou aqui!.
Havería de as esquartejar, debulhar, tingir os dedos lá pelos Reis. Para ter a sensação de ser também o dia dela, o da Rainha.
Mas o momento alto era quando grão a grão levava à boca as pequenas jóias cor de granada e lhes sentía no sumo fresco as saudades de seu pai.
LIÇÃO GOURMET

Mascaro-me de chocolates e baunilhas, caramelos e caldas. Tudo muito doce, muito teu, tanto da poesia que me fazes sentir em cada gesto leve que denomina prazeres, fantasias, o gosto da tua boca a soprar outros sentidos, hoje é só provar dizes tu, e eu cumpro a lição como a natureza me ensinou: Ávida de ti.
LÍNGUA(S)

Aprendi letras, ditos, contas e mexericos, aprendi a escondê-la na contrariedade e a exibi-la na jocosidade, aprendi o sabor do acre e do doce, das lágrimas de riso e as de esconde-esconde, aprendi a lamber, experimentar e sorver, aprendi a crescer, aprendi a beijar, aprendi a salivar, aprendi outras línguas, outros saberes, outros quereres e de todas elas aprendi também, não há língua igual à de mais ninguém.
O SEGREDO
Ouviu de olhos abertos, muito abertos para nada perder. Sentiu o coração a bater com mais força à medida que engolía as palavras que lhe falavam e estas a enchíam da solenidade do momento.
Olhou ao redor.
Só para ela tinha sido revelado o segredo.
Agora só a ela competía guardar-lhe o sabor.
E de tão imenso que era e precioso e verdadeiro, levou a mão à boca que este tinha um gosto forte para o que estava habituada.
DOIS CORAÇÕES
Dois sabores, dois géneros, duas familias, dois gostos num.
Não é assim que deve ser? Unir o que é separado, juntar bocas num beijo, olhares nas palavras, paladares num mesmo amor?
Das duas metades fez um manjar único e alimentou-se dele, sem lhe acabar o nutrido sumo, sempre mais, sempre mais cativado, sempre mais amado.
DESPEDIDA
TOCAR
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