Lá porque se foi o tempo das romãs não se foi o gosto das estórias das princesas e dos reis. Tantas há para contar quantos os bagos se entretêm na boca a tirar o suco doce e transparente e ainda da sua cor sanguínea se podem fazer realidades bastante para nelas se acreditar.
DESEJA-ME SORTE
Deseja-me sorte, diz-me que me desejas tudo de bom e que vá em paz, com alegria, sucesso, essas frases feitas e bonitas, muito estudadas para o momento e que se sabe resultam sempre, não importa que se digam repetidas vezes e a todos, mesmo ao estranho que uma única vez na vida se avistou e não se volte a encontrar. Deseja-me boa sorte, de maneira doce como se derretesses um caramelo na boca, há coisas que precisamos ouvir na partida para as levarmos na bagagem como última memória, um pacote que segue na mão aparte a mala grande, diz-me boa sorte e até à volta mesmo que eu não regresse e este seja um adeus, boa sorte e tudo de bom, só com a boca que é isso que levo de ti, os teus lábios a dizerem-me uma maravilhosa mentira mas é esse o último sabor que levo nesta viagem.
BARRIGA CHEIA
Já se deram os vivas, os presentes, já se fizeram os votos, as garfadas e as colheradas, serviram-se e lamberam-se de coisas doces, palavras guardadas em naftalinas verdes com cheiro de pinho que se desembrulharam para encher olhos e barriga, outras tantas na boca se enfartaram. Gulas destas só uma vez ao Ano, valha ao menino que só nasceu uma vez!
A BOCA DIZ FOME
E também não diz, insinua, o que é muito mais comer e muito mais fome e até apetites além das voracidades da língua, são palavras, são vontades coladas ao céu que não da boca, são por dentro a bater nas paredes do cómodo do coração, são disparos e encontrões, são lábios fechados que se apertam para não saír em convulsões de beijos e saliva e pequenas mordiscadelas que se vão transferindo para a fome do outro e tal como os pássaros, alimentando o outro, e come-se e quer-se mais, diz-se mais e vai-se a ver, saboreado o todo, escutou-se o silêncio a rugir no estômago da refeição desejada.
COMENSAIS DO SILÊNCIO
Nem tudo o que se leva à boca nutre. Nem tudo o que é da boca alimenta. Um dia hão-de haver palavras sem sons que farão uma boa mesa, farta, a mais com conviva que chegue de surpresa ou que parta sem que se azede o pitéu que reste, uma terrina de verbo que console o olhar enquanto sorvido na colherada calma e sorridente, entrecortada por silêncios respirados no respeito de quem sabe o que come, aprecia e deseja a próxima refeição saborosa em tão boa companhia.
ENTREMEIOS DA SAUDADE
Do vermelho amadurecido pelo rei amarelecem agora as saudades no dourado da nostalgia. Não passou tudo, não chegou tudo, um limbo de ajuste às papilas que se esfregam num céu de boca a recordar palatos queridos e aconchegados às estórias.
...Isto faz-me lembrar o que eu tanto gostava de...
DOURADO
No tom de mel, no tom de Outono, no sabor da nostalgia do Sol baixo que guardo no bolso da minha memória, os sucos doces que pacificam o frio da saudade ou o arrepio do adeus.
DAQUI A NADA...
Tempo de frutos que se enroupam para as tardes frescas, para as noites húmidas. Que saciam na frescura as manhãs ensolaradas a recordar o Estio no pretérito recente que logo, logo há-de a hora avançar no céu riscado a fogo, o apetite a outros paladares de mais aconchego, mais abraços.
EM BREVE
Conversar. Saborear-te os gestos falados em doses de pequena folia quando nas tardes imaginadas de um Outono que nos há-de chegar, contamos de coisas já idas e recordamos paladares comuns e bons de afectos que outros nos trazem, que outros nos dão as mãos sem o toque dos dedos. Nós tão perto, os lábios tão próximo. Porque o gosto de um é o gosto universal das memórias das corridas de braços abertos pelas encostas ou o rebolar louco das dunas ou ainda o tino perdido do baloiço. Nós tão perto neste calor de Agosto onde as folhas que principiam a amarelecer para aquecer palavras na próxima estação, conversamos, sonhamos, recordamos, velhos novos sabores.
CARÊNCIA
Vicios. A dependência de olhos semi-cerrados enquanto o coração desacelera na pulsação do reconhecimento do que lhe é familiar, doce, precisado, um achar que não tendo agora que voltou não mais da liberdade dirá palavra.
Há mais na ponta da língua do que o sentido saboreia. Também o verbo, venenoso.
ACORDAR
Quero tudo, tenho fome e sede e olhos e boca de falar e contar sorrisos, quero pão de todos os gostos que possa dizer regresso, abraços e casa e sentir a voz na lingua a vibrar canções antigas como alimento que sacia das saudades que partem como os que se foram. Mas sempre me deram o miolo na macieza do seu bem-querer.
UM ANO DE PALADARES

Ainda mal comecei a sentir o gosto, a aperceber-me do amargo-doce, do acre-acidulado, do salgado-azedo. No final é tudo mel, tudo o que se souber fazer com este creme untuoso que se cola nos dedos, na ponta da lingua, que escorre dos olhos e vem do peito, cá de dentro da boca ávida do coração. Continuo faminta. Sempre.
LADY GRENADINE

Quando ficou só vestiu-se de branco à maneira do luto oriental. Esqueceu as cores do mundo e fechou o coração. Colheu a última romã da época e ficou à espera da estação que lhe trouxesse novos frutos. Mas como o gosto da vida lhe escapara com a partida, a árvore definhou e não voltou a florir.
Fez-se lenda. Dizem que a sua última vontade foi sentir na boca um bago da grenadina apanhada. Fechou os olhos feliz com um sorriso por ver a romazeira que a esperava do outro lado. Acompanhada.
FRUTOS
A QUE SABE O VERBO

Encharcou-os de prendas várias, observou-os, forneceu o material e quis saber do que eram capazes e depois de ver que se alimentavam, seleccionavam apreciando e rejeitando, entregou-lhes o maior sabor de todos.
Porém, o mais dificil de digerir.
Atribuiu-lhes a voz e pediu palavras bonitas. E o paladar destas era tão raro que a partir daí passaram a usá-las com parcimónia no receio de lhes vulgarizar o gosto.
O GOSTO PELA PALAVRA
Purpurinas. No fundo tingía as palavras de hálitos que encomendara, do seu achava-o ensonso, carenciado de uma maquilhagem que o colorisse de adjectivos saborosos e apelativos ao discurso, beliscava interrogações para logo matar a fome nas reticências. Certo dia provou ameixas. Das verdes. E súbito a baba lhe inundou a boca. Como as palavras de uso alheio. Depois adoçaram-lhe a lingua com ameixas sangrentas, profundas, licorosas e desde então pouco mais abriu os lábios no medo de perder tal paladar.
UMA VEZ SÓ CHEGA
Estranho terreno este em que se atiçam vontades e desejos e se vomitam palavras e enfados, iguarías estragadas comidas no exagero da hipérbole retorcida da mentira.Estranho terreno este cheio de memória, de filamentos nervosos que se escaldam e arrepiam e consolam males do coração e se empapam à primeira do gosto provado como o pecado original.
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