BOMBONS

 
 
 

Serviram chá e biscoitos mas também pequenos bombons caseiros, daqueles para remate muito doce do palato. As senhoras beberricavam de dedinho espetado, entre trocas de segredos culinários ou pontos de crochet descobertos em antigas amostras herdadas de tias solteiras que nada mais tinham de interesse do que coisas de mão. Contavam pequenos pormenores de história familiar, relíquias escondidas durante muitos anos como segredos de estado que se devem manter privadas para bom nome do apelido, mas que com o passar do tempo e de boca em boca, tantos acrescentos se lhe davam que sempre chegavam mais fantásticas do que a sordidez da realidade. Acompanhavam a cada pedaço do relato e nas reticências do suspense, um bombom, mais um que é para acabar a história.

FAZ-DE-CONTA

 


Pintou os lábios.
Depois sorriu.
-Agora já posso dizer palavras coloridas

O SABOR DE SER FELIZ

 


Tinha um sorriso muito especial, não muito rasgado daqueles em que se exibem os dentes ou a ponta da língua espreita, mas os lábios arqueavam-se numa forma crescente de felicidade que comunicava contagiante a vontade dos outros sorrirem.
Eram uns lábios vermelhos que pareciam colorirem-se de permanente suco de groselhas, uma fruta sumarenta e brilhante que adocicava as palavras que proferia por mais simples que fossem.
Tinha o sabor de ser feliz.

 

OUTROS SABORES

 

 
Nem só de doce e de sal se fazem os sabores das palavras. Também as que sabem a sangue formam as letras de dizer defesa, ataque e cuidado, tudo paladares de provar durante a vida, ou não fossemos animais de rasgar a carne, saciarmo-nos e lembrar esse gosto até à morte.

O CASTELO DO CORAÇÃO

 


Trazía-a amparada nos braços, encostada à barriga, um sorriso largo. O deslumbramento começava ainda antes de se rachar o fruto, era gigante, poderoso, toneladas de segredos e estórias que durariam enquanto houvesse vontade a saciar. Depois ele enfiava uma faca muito afiada mesmo no centro do verde brilhante, quase parecia matar um animal selvagem que se escondesse sob a casca dura da melancia, retirava triângulos perfeitos e carnudos de um vermelho sangrento que lhe oferecia com uma exclamação, O castelo, doutras dizia que era O coração por estar mesmo no meio. Ela esticava as duas mãos pequenas e pelos cotovelos pingava um fio peganhento e encarniçado, e a estória? Mais uma talhada? mas tens de prometer que não bebes água ou dentro da barriga ficam rolhas a boiar... Essa era a primeira estória. Depois vinham desenhos com as sementes pretas e o sabor da memória ficou-lhe até aos dias de hoje.
 
 

FORA DE HORAS

 


 
Não terminavam as frases, ríam, as palavras ficavam comidas pelos lábios que se abríam em gargalhadas baixas mas francas, a boca escondida pela mão que encobre devaneios de quem explora a vida no instante sem rumo, o gozo do momento na felicidade sentida já, partilhavam sentires, gostos, a bebida comum pedida várias vezes a acompanhar tempo sem relógio. Dedicavam-se a conquistar sem compromisso, degustavam-se na companhia um do outro, ofereciam aperitivos no verbo simples, feliz, sem barreiras, saboreavam-se a ser homem e mulher.
 
 

DOCES

 

 
Serve-me uma estória como sobremesa e sentir-me-ei com um banquete tomado.
 

DAR & REPARTIR

 

 
Saborear frescuras, ver na cor alimentada a esperança de dias maiores em que o sorriso se tinge da natureza consagrada à festa, motivo de comemoração e também sem esta, haja vida, hajam mãos que queiram dar e repartir. Abril, dias de sentidos.

DOS SETE

 


O Sol está a chegar em doses grandes para alimentar a minha fantasia.


 
 
Oferece-me um mundo de cores no prisma da luz dos 7 do arco-íris.
 

DOS BAGOS DAS ESTÓRIAS

 


Lá porque se foi o tempo das romãs não se foi o gosto das estórias das princesas e dos reis. Tantas há para contar quantos os bagos se entretêm na boca a tirar o suco doce e transparente e ainda da sua cor sanguínea se podem fazer realidades bastante para nelas se acreditar.
 

DESEJA-ME SORTE


 
Deseja-me sorte, diz-me que me desejas tudo de bom e que vá em paz, com alegria, sucesso, essas frases feitas e bonitas, muito estudadas para o momento e que se sabe resultam sempre, não importa que se digam repetidas vezes e a todos, mesmo ao estranho que uma única vez na vida se avistou e não se volte a encontrar. Deseja-me boa sorte, de maneira doce como se derretesses um caramelo na boca, há coisas que precisamos ouvir na partida para as levarmos na bagagem como última memória, um pacote que segue na mão aparte a mala grande, diz-me boa sorte e até à volta mesmo que eu não regresse e este seja um adeus, boa sorte e tudo de bom, só com a boca que é isso que levo de ti, os teus lábios a dizerem-me uma maravilhosa mentira mas é esse o último sabor que levo nesta viagem.

BARRIGA CHEIA

 

 
 
Já se deram os vivas, os presentes, já se fizeram os votos, as garfadas e as colheradas, serviram-se e lamberam-se de coisas doces, palavras guardadas em naftalinas verdes com cheiro de pinho que se desembrulharam para encher olhos e barriga, outras tantas na boca se enfartaram. Gulas destas só uma vez ao Ano, valha ao menino que só nasceu uma vez!
 
 
 
 

A BOCA DIZ FOME

 


E também não diz, insinua, o que é muito mais comer e muito mais fome e até apetites além das voracidades da língua, são palavras, são vontades coladas ao céu que não da boca, são por dentro a bater nas paredes do cómodo do coração, são disparos e encontrões, são lábios fechados que se apertam para não saír em convulsões de beijos e saliva e pequenas mordiscadelas que se vão transferindo para a fome do outro e tal como os pássaros, alimentando o outro, e come-se e quer-se mais, diz-se mais e vai-se a ver, saboreado o todo, escutou-se o silêncio a rugir no estômago da refeição desejada.
 
 
 
 

COMENSAIS DO SILÊNCIO

 

 
Nem tudo o que se leva à boca nutre. Nem tudo o que é da boca alimenta. Um dia hão-de haver palavras sem sons que farão uma boa mesa, farta, a mais com conviva que chegue de surpresa ou que parta sem que se azede o pitéu que reste, uma terrina de verbo que console o olhar enquanto sorvido na colherada calma e sorridente, entrecortada por silêncios respirados no respeito de quem sabe o que come, aprecia e deseja a próxima refeição saborosa em tão boa companhia.
 
 

ENTREMEIOS DA SAUDADE

 

 
Do vermelho amadurecido pelo rei amarelecem agora as saudades no dourado da nostalgia. Não passou tudo, não chegou tudo, um limbo de ajuste às papilas que se esfregam num céu de boca a recordar palatos queridos e aconchegados às estórias.
 
...Isto faz-me lembrar o que eu  tanto gostava de...
 
 

DOURADO

 


No tom de mel, no tom de Outono, no sabor da nostalgia do Sol baixo que guardo no bolso da minha memória, os sucos doces que pacificam o frio da saudade ou o arrepio do adeus.

DAQUI A NADA...



 
Tempo de frutos que se enroupam para as tardes frescas, para as noites húmidas. Que saciam na frescura as manhãs ensolaradas a recordar o Estio no pretérito recente que logo, logo há-de a hora avançar no céu riscado a fogo, o apetite a outros paladares de mais aconchego, mais abraços.
 
 

EM BREVE



 
Conversar. Saborear-te os gestos falados em doses de pequena folia quando nas tardes imaginadas de um Outono que nos há-de chegar, contamos de coisas já idas e recordamos paladares comuns e bons de afectos que outros nos trazem, que outros nos dão as mãos sem o toque dos dedos. Nós tão perto, os lábios tão próximo. Porque o gosto de um é o gosto universal das memórias das corridas de braços abertos pelas encostas ou o rebolar louco das dunas ou ainda o tino perdido do baloiço. Nós tão perto neste calor de Agosto onde as folhas que principiam a amarelecer para aquecer palavras na próxima estação, conversamos, sonhamos, recordamos, velhos novos sabores.
 
 

CARÊNCIA



Vicios. A dependência de olhos semi-cerrados enquanto o coração desacelera na pulsação do reconhecimento do que lhe é familiar, doce, precisado, um achar que não tendo agora que voltou não mais da liberdade dirá palavra.
 
Há mais na ponta da língua do que o sentido saboreia. Também o verbo, venenoso.
 
 

ACORDAR





 
Quero tudo, tenho fome e sede e olhos e boca de falar e contar sorrisos, quero pão de todos os gostos que possa dizer regresso, abraços e casa e sentir a voz na lingua a vibrar canções antigas como alimento que sacia das saudades que partem como os que se foram. Mas sempre me deram o miolo na macieza do seu bem-querer.